Quem é o fotógrafo por trás das icônicas imagens da Nouvelle Vague? {por Luciana Rocha}
Todo mundo conhece suas fotos mas quase ninguém sabe seu nome. Para quem está em Paris e é amante do cinema, uma exposição imperdível é Raymond Cauchetier – Nouvelle Vague, que atualmente acontece na galeria Polka, pequeno espaço expositivo que pertence à revista de mesmo nome dedicada ao fotojornalismo. A pequena seleção de obras presente em Polka traz algumas das imagens mais icônicas deste mestre da fotografia de still.
Nascido em Paris, em 1920, Cauchetier foi uma testemunha privilegiada da Nouvelle Vague. Escondido atrás de sua Rolleiflex, captou imagens emblemáticas que hoje transformaram-se em ícones deste movimento cinematográfico criado por Jean-Luc Godard, FrançoisTruffaut, Claude Chabrol e Agnés Varda, entre outros.
Raymond Cauchetier converteu-se em fotógrafo quase por acidente. Aos 31 anos, quando era chefe do serviço de informação da Força Aérea francesa na Indochina, foi encarregado de realizar um álbum fotográfico de Saigon. Como o exército não tinha orçamento para contratar um fotógrafo, comprou uma câmera Rolleiflex e passou a realizar, ele mesmo, reportagens de campo para a Armada Francesa. Fazia fotos de aviões, de soldados, e da guerra em geral, que eram publicadas em vários meios anonimamente.
Pouco a pouco Cauchetier acabou interessando-se pelos cambojanos e vietnamitas. Decidiu deixar o exército e passou a realizar reportagens na região. Aí foi onde conheceu o documentarista Pierre Schoendoerffer. Mas, foi através de um encontro casual com o diretor Marcel Camus (Orfeu Negro) que entrou definitivamente para o mundo do cinema, realizando imagens de filmes realmente ambientados.

Filmagem de “Dien Bien Phu” (1954), de Pierre Schoendoerffer
Nesta época, a publicação de um pequeno álbum fotográfico intitulado “Saigon”, que é bem recebido em América, lhe dá forças para explorar seu talento como repórter. Porém, ao retornar à França, Cauchetier não consegue encontrar trabalho como fotojornalista, e passa a realizar foto-romances para a editora Hubert Serra. É através de Serra que ele conhece Jean-Luc Godard, que até então trabalhava como crítico de cinema enquanto esperava tornar-se cineasta. Em seu filme de estréia, Godard contrata Cauchetier como fotógrafo de set. “À bout de souffle” (1960), marca a história do cinema mundial.
Da fotografia still ao documentário
Raymond Cauchetier não foi apenas um fotógrafo de still. Suas imagens retratam o ambiente de filmagens de maneira próxima, intimista, documentando momentos descontraídos de atores ou momentos de tensão entre equipe e diretores. Segundo o próprio fotógrafo, quando ele se deu conta de que presenciava um revolução cinematográfica, não se contentou com seu papel de fotógrafo de cena (que nesta época era contratado pela produção, quase não tinha contato com o diretor, e devia ser o mais invisível possível).

A bela imagem em que Jeanne Moreau salta feliz durante as filmagens de Julles e Jim. Ao lado, o diretor François Truffault
Aproveitando o momento de ouro do cinema francês, começou a registrar por sua conta imagens das filmagens e cenas que não estavam no roteiro. A imagem que rodou o mundo divulgando “À bout de souffle” (no Brasil “Acossado”), e transformou-se em ícone absoluto do movimento, curiosamente não estava no roteiro de Godard. Depois da filmagem terminada, Cauchetier pediu aos dois jovens atores que caminhassem em sua direção. A cena em que Jean Seberg caminha nos Champs-Élysées ao lado de Jean-Paul Belmondo transforma o casal numa legenda.

Cena de “À Bout de Souffle” (1960). Jean-Paul Belmondo no chão e Godard, que aparece observando a cena com gravata sobre os ombros
Na mesma filmagem, Cauchetier realiza outra imagem ícone da Nouvelle Vague: a cena que mostra Jean Paul Belmondo caído no chão, completamente rodeado por passantes, absortos pela morte do personagem no final de “Acossado”. Como na vida real, os curiosos cercam o ator, esperando pelo resgate que, nesse caso, vem através da lente da câmera. Nesta cena, vemos claramente que Godard filmava com poucos recursos e uma equipe reduzida.
Cauchetier trabalhou no cinema até 1968 (quando realizou seu último still em “Baisers volés”, de Truffaut). Seus mais de dez anos de dedicação à esta arte rendeu um apanhado de imagens que documentam o trabalho de diretores e atores que mudaram a história do cinema. Suas fotos foram publicadas anonimamente durante anos, chegando até a ganhar dupla página em “Paris Match” sem que seu crédito aparecesse. Inacreditavelmente, esta é a primeira vez que suas imagens são mostradas na França.

Cena de “À Bout de Souffle” (1960)
Hoje com 92 anos, Cauchetier é finalmente reconhecido como o grande fotógrafo da Nouvelle Vague. Apesar de ainda ser pouco conhecido em sua terra natal, será celebrado nos Estados Unidos com uma exposição em Los Angeles. A exibição de aproximadamente 125 imagens de still clicadas por ele farão parte das comemorações da 84ª cerimônia dos Oscars.
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