Home » Histórias

A fotografia indiana :: parte 1/2 {por Juan Esteves}

[ | 30 abr 2012 | No Comment | 3.130 visitas ]

A Índia é um país cheio de superlativos. Foi, e ainda é, retratado por grandes escritores, grandes artistas; lembrado pela sua religiosidade ampla, do budismo ao  hinduísmo; pela sua enorme produção cinematográfica, através da Bollywood (fusão de Bombay com Hollywood) e exageros em diferentes manifestações: sétimo país em área geográfica, segundo em população, e como não poderia deixar de ser, por uma produção fotográfica também expressiva, embora nem tão popular como suas outras artes, mas igualmente generosa e rica.

Muito mudou desde que Sir Richard Burton (1821-1890) tornou popular no Ocidente os The arabian nights (os contos das 1001 noites) ou o Kama Sutra (saga erótica indiana) no final da era Vitoriana. Das imagens da dupla Bourne & Shepherd, retratando a Calcutá de 1867, até as manipulações fotográficas em 3D do artista Baiju Parthan, de 2011, a produção do país passa pelo registro documental clássico e vai para as experimentações multimídias. Se o mundo mudou, os fotógrafos e artistas indianos também  não ficaram parados.

Parte significativa dessa produção fotográfica foi exposta no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, na mostra Índia, lado a lado, Arte Contemporânea indiana, onde diferentes artistas e fotógrafos compartilham uma imagética tão ampla quanto a literatura e os textos religiosos de seu país. Lá estavam  registros documentais, bem como a nova arte indiana, que como as de outros países, encontrou na fotografia um novo sopro criativo.

Não há dúvida que essa extensa produção vem sendo mediada pelo olhar ocidental, que tenta traduzir as peculiaridades de um país que tem como força motora um exotismo, muitas vezes caracterizado por uma visão peculiar, com uma importância forjada mais na estranheza de seu conteúdo do que nas características artísticas ou fotográficas que estas poderiam representar.

Por muito tempo a fotografia definiu um papel expressionista, calcado em parte na representação do retrato, da imagem de rua (street photography) no posicionamento político (as transformações da era colonial à independência) como as imagens de Homai Vyarawalla (1913-2012) e suas antológicas fotografias do Mahatma Ghandi, até chegar nas contemporaneidade quando seus produtores se rendem as performances e instalações, eco de um caminho aberto por artistas como Avtarjeet Dhanjal ou Anish Kapoor.

Se podemos considerar que existe uma “imagem indiana” ela deve ser creditada a fundações como a Alkazi Foudation of Art, baseada em Nova Dheli, que desde 1995 vem se dedicando a pesquisa e preservação da fotografia. A Alkazi Collection of Photography (ACP)  reúne cerca de 85 mil imagens do século 19 e do século 20, oriundas do Sul da Ásia, da África do Norte e do Oriente Médio, entre negativos de acetato, cópias vintage, negativos de vidro, álbuns que vieram da Índia, Nepal, Sri Lanka, Afeganistão, Tibet e Burma entre outros países.


Fotógrafo desconhecido, cerca de 1900 © Alkazi collection

A arquitetura, a arqueologia, o desenvolvimento da colônias, estão registrados fotograficamente. Além dos fotógrafos orientais, temos imagens produzidas por grandes artistas do ocidente que vão do italiano Felix Beato (1832-1909) ao francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) que colaboraram definitivamente com a expansão dessas imagens ao redor do mundo. No entanto, é em trabalhos como o de  Vyarawalla, seguidora de Ghandi, e considerada a primeira fotojornalista indiana que se tem notícia, que a imagem contemporânea se firma.

Para a compreensão do processo evolutivo da imagem indiana, temos que retornar alguns anos, com o trabalho da dupla Bourne & Shepherd, estabelecidos em Agra desde 1863, considerado o mais antigo estúdio fotográfico no país e um dos mais antigos no mundo. Charles Shepherd e Samuel Bourne, bem como os fotógrafos do estúdio de John Nicholas & Co, abriram caminho para a documentação do povo e arquitetura indiana e caminharam juntos com a evolução da fotografia ao redor do mundo, tradicionais estúdios fotográficos que atendiam principalmente as comunidades mais abastadas das grandes cidades.


John Nicholas & Co :: Madras 1860-1890 © Alkazi Collection

Os tipos humanos, retratos do dia-a-dia, de cidades como New Delhi ou Calcutá, cujas reverberações alcançam expressão internacional, foram se estabelecendo no cânone, chegando às representações contemporâneas, em obras de expressivos fotógrafos como Manu Thomas. Para este fotógrafo, “há uma espécie de fascinação e riqueza, naquela imagem suburbana, diferente da visão rural”. Em suas séries, extraídas do caos das grandes cidades,  cuja poesia é um denominador comum,  ele destaca “uma beleza interior no meio de um trabalho incessante e duro”.  (continua… )


© Manu Thomas

*Publicado originalmente na revista Fotografe Melhor de abril de 2012.

Veja mais posts de

Não gostei!Gostei! (Nenhum voto registrado.)
Loading ... Loading ...




Leave your response!

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Be nice. Keep it clean. Stay on topic. No spam.

You can use these tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

This is a Gravatar-enabled weblog. To get your own globally-recognized-avatar, please register at Gravatar.